O que acontece com as histórias que ficam pelo caminho? Para o cantor e compositor Glebbo, o “quase” não é um vazio, mas um estado de presença absoluta. Em seu novo EP, “Quase que a gente namora”, que chega às plataformas no dia 22 de maio pela Marã Música, o artista transforma a ausência e a expectativa em uma sonoridade envolvente que transita entre o R&B e o Pop, explorando a beleza das conexões que, mesmo sem um rótulo final, deixam marcas profundas. Faça já o pré-save!
Neste trabalho, Glebbo se despe de proteções para abraçar a vulnerabilidade como sua maior força de comunicação. Com influências que vão de Delacruz a Gloria Groove, o músico traz uma identidade autêntica, fundamentada em sua vivência na igreja e em uma postura de mercado que celebra a música preta como ferramenta de conquista. No EP, ele não apenas canta sobre relacionamentos, mas materializa sentimentos em arranjos onde ele próprio assume o controle de quase todos os instrumentos, do violão ao saxofone.
Em um papo franco e reflexivo, ele detalha o processo criativo por trás das quatro faixas, explica por que o inacabado fascina tanto a mente humana e revela como suas experiências pessoais se transformaram em um “recipiente” de cura e identificação. Confira abaixo os principais detalhes sobre essa nova fase, onde a música serve de embalagem para verdades que todo mundo já sentiu, mas nem sempre soube como dizer.
O EP fala sobre relações que ficaram no “quase”. Em algum momento durante o processo de composição você percebeu que essas histórias inacabadas acabam, às vezes, marcando mais do que relacionamentos que realmente aconteceram?
Falando de uma forma mais universal, eu acredito que na mente humana o quase, ou o não ter alguma coisa, significa buscar por essa coisa, então a ausência daquilo faz você querer aquilo. Por exemplo: um equipamento, uma roupa ou alguma coisa que você quer ter muito e quando você tem acesso àquilo o tempo todo, você não usufrui tanto, não usa tanto, porque aquilo está ali para você, então, você deixa de ter essa conexão.
Quando você não tem esse acesso, quando você está ali na dúvida – que é o ‘quase’ – eu acho que a tendência é isso ficar mais aceso na mente, no presente. E aí o quase se torna maior até do que a realização da coisa em si. Falando de relacionamentos, existem muitos casos, de amizades até carreiras musicais, em que o auge daquela história, infelizmente, se torna o ‘quase’. E é muito louco, né? Espero ter respondido.

Existe uma mistura muito natural entre vulnerabilidade nas letras e uma atmosfera leve na produção. Como foi encontrar esse equilíbrio entre falar de sentimentos intensos sem transformar o EP em algo pesado?
Eu acho que a vulnerabilidade do artista é o ponto de mais beleza e conexão que existe entre a parte interna dele, que é o espírito que anima a vida do artista, até chegar no público. Eu acho que quando ele é vulnerável, ele é sincero, ele se expõe, ele comunica além das palavrinhas ali, além das notas, além da performance. E é o que eu busco: a comunicação. Independente de nota, independente do que está sendo dito ali, é falar: ‘Pô, eu sinto isso, vamos aprender juntos, vamos entender juntos isso aqui’. É uma troca, realmente. Eu acho que a minha música é sincera porque eu não tento controlá-la. Eu não fico tentando fazer ‘isso vai ficar leve’ ou ‘isso vai ficar pesado’ para agradar. Não, eu estou sentindo uma coisa ali e o meu instinto vai me levar a fazer aquele som. Eu vou querer sentir aquilo, e essa sensação é o que vai fazer eu materializar essa música. Entendo que esse recipiente, que é a base da música, vai levar uma letra que vai ser um perfume, que vai ser um alimento, sabe? Então meu pensamento é que a música é uma embalagem, ela é um recipiente que leva a informação. E que legal conseguir fazer isso de forma espontânea. Eu acho que é leve porque é espontâneo, sabe?
Você cita artistas como Delacruz, Os Garotin e Gloria Groove como referências. O que você acredita ter absorvido de cada um deles e em que momento percebeu que já estava construindo uma identidade própria dentro desse universo pop e R&B?
Cara, que legal falar aqui de referência, né? Essas pessoas que eu citei, DelaCruz, Os Garotinhos, Gloria Groove, são pessoas que vão além de uma referência musical. Eu acho que tem muito a ver, para mim, com uma referência de postura de mercado, de conseguir representar o som mesmo, o R&B, que é uma música na qual sempre houve muita luta para o som chegar, mas sempre foi muito difícil por preconceito, até chamavam de ‘música de preto’, ‘música difícil’ ou ‘música de igreja’. Foram vários adjetivos que nunca deixaram essa música exponenciar do jeito que está acontecendo hoje, por exemplo. E essas pessoas citadas são pessoas que levam a bandeira não só como uma bandeira, mas como uma essência.
A gente faz esse som de forma pura, de forma real. E é legal demais ver essas pessoas que saíram de lugares parecidos com o meu. Estamos falando de pessoas que vieram de uma simplicidade, né? Gente que veio da igreja, essa minoria, pessoas para quem a base realmente foi a arte, foi a música. Então, eu quero deixar frisado que essa referência é muito além de algo musical: são pessoas que são referências como conquistadores de espaço, de arte.

“Quase que a gente namora” tem um conceito muito conectado às experiências humanas e às memórias afetivas. Qual faixa do EP você acha que vai surpreender mais o público quando ouvirem pela primeira vez e por quê?
Eu vou escolher falar da faixa de trabalho, que é ‘Quase Que A Gente Namora‘. Apesar de adorar todas as músicas, e eu tenho certeza de que cada uma tem algo especial que vai surpreender também, mas ‘Quase Que A Gente Namora’ é, com certeza, a música mais comercial que eu já fiz e que já trabalhei. Ela tem um apelo emocional forte do ‘quase’ romance. E é uma parada pessoal, uma parada que realmente eu vivi, estou saindo disso agora e isso se transformou em música. Eu acho que, por isso também, é mais fácil de as pessoas assimilarem, porque tem toda aquela coisa de ser sincero, de estar vulnerável ali, falando do jeito que foi.
A sonoridade é maravilhosa, moderna, com influências do trap, mas é um R&B com uma melodia bonita. Eu toquei saxofone, tem guitarra, tem violão. Vale lembrar que fui eu que toquei tudo também, exceto a bateria, que foi o Ike que produziu e programou. Então, ela tem essa coisa do beat também, que é pesadão, e um refrão marcante que se repete algumas vezes. Fora que tem uma pitada de sacanagem com sarcasmo e uma baladinha gostosinha de sentir, de se emocionar, né?
Acho que ‘Quase Que A Gente Namora’ é a faixa que mais vai surpreender, porque é a música mais comercial que o Glebão já gravou e porque eu estou falando de uma forma muito pessoal, muito vulnerável mesmo, sobre esse relacionamento ou esse quase relacionamento.

