Wed. Jan 28th, 2026
Foto: Marcelo Caldas

Nathan Fronza é o novo rosto da capa digital da Energy Mag, consolidando um momento de profunda metamorfose em sua carreira. O artista, amplamente reconhecido por sua maestria como guitarrista e sua forte presença digital, inicia 2026 reafirmando sua identidade como compositor e intérprete. Este novo capítulo ganha vida através da Marã Música, selo que chancela o lançamento do impactante single “A Última Sombra”, disponível em todas as plataformas de áudio no próximo dia 30 de janeiro. Faça agora o pré-save!

A canção é um manifesto visceral que funde o rock’n’roll cru a uma atmosfera ritualística, inspirada pela cultura dos povos originários e por vivências xamânicas. Musicalmente, a obra resgata a ancestralidade do ritmo e a força das guitarras dos anos 70 para traduzir uma urgência contemporânea. O single, que começou a ser gestado em 2020, encontrou sua conclusão definitiva sob o céu cinzento das queimadas de 2024, transformando angústia em potência sonora.

Mais do que um lançamento musical, “A Última Sombra” propõe uma reflexão em duas camadas: a transformação espiritual interna e o grito político contra a crise climática. Através de metáforas sobre o fogo e o “céu vendido”, Nathan utiliza sua arte para questionar um sistema que consome a natureza e a própria voz do indivíduo. Acompanhada por um clipe pós-apocalíptico, a obra marca a transição de um músico que, após décadas como sideman, assume finalmente o protagonismo de sua própria mensagem.

Em entrevista exclusiva à Energy Mag, ele conta os detalhes sobre o desafio de assumir os vocais pela primeira vez e o processo de superação após quase desistir do projeto devido à perda total das primeiras gravações do clipe. Nathan reflete sobre como a música se tornou sua única forma de respirar diante do sufocamento ambiental e explica como sua bagagem no Conservatório de Tatuí e sua pesquisa sobre as raízes afro do rock moldaram o som denso e necessário de sua nova fase.

Confira agora o bate papo completo:

“A Última Sombra” fala muito sobre transformação e crise climática. O que te motivou a transformar esse incômodo em música?

Exatamente, você pode interpretá-la através de uma perspetiva mais individual, onde o fogo representa este processo de transformação interior que surge a partir daquele momento em que você começa a lutar contra as suas próprias sombras, ou seja, o que há de mais assustador dentro de você e que costumamos ignorar por completo. Por outro lado, há uma mensagem política te convidando para lutar para defender a natureza, e consequentemente o nosso futuro como espécie. Enfim, ela fala sobre uma transformação no mundo interior e ao mesmo tempo no mundo exterior, e o que me motivou a transformar este incômodo em música foi apenas a necessidade de me expressar artisticamente, é algo mais forte do que eu e que não consigo controlar. Eu estava angustiado após quase um mês sem poder ver o céu azul e sem conseguir respirar direito, isso foi durante as queimadas de 2024, eu peguei a guitarra e quando eu percebi a música já estava pronta.

Foto: Erik Machado

A sonoridade do single mistura rock cru com referências à cultura dos povos originários do Brasil. Como foi esse processo de juntar essas duas forças dentro da mesma canção?

Fico feliz de você ter percebido estas duas referências nesta música, porque é exatamente isso. Eu sempre fui do Rock N’ Roll, e cada vez mais eu fui buscando conhecer as bandas mais antigas, fui cavando até chegar no início do Blues, isso simplesmente me pegou em cheio, como se fosse um chamado, e aí eu percebi que praticamente tudo o que eu gostava de ouvir tinha origem afro, o que me levou a uma série de pesquisas, inclusive conhecer um pouquinho do continente africano e também tocar junto com músicos de alguns países africanos, e consequentemente entender um pouco sobre a maneira com a qual eles enxergam a música, que é bem diferente de como aprendemos por aqui. Durante estas pesquisas eu fui entendendo que ao longo do tempo o Rock foi se afastando desta origem afro, e aí o som começou a mudar, então eu comecei a ficar cada vez mais interessado em ouvir bandas que ainda buscavam manter esta origem, como por exemplo Cream, Jimmy Hendrix e Led Zeppelin, e fiquei cada vez mais obcecado com a questão do Ritmo. Este processo me levou a querer conhecer mais sobre a cultura dos povos originários do continente americano, que em um determinado momento também começou a incorporar elementos da música de origem africana, e este processo me levou a participar de um ritual xamânico, o que me transformou em diversos aspectos. Logo depois veio a pandemia, e eu estava com a cabeça explodindo, cheio de criatividade, compus muita coisa durante este período, inclusive a introdução desta música, que juntava uma guitarra com um som clássico de Les Paul e Marshall, bem na onda dos anos 70, e ao mesmo tempo as vozes com um grito de guerra, inspirados nos cantos do povo Lakota, da América do Norte. Esta ideia ficou guardada até 2024, apenas germinando, eu sabia que em algum momento ela iria se completar de uma forma ou de outra, eu vejo ela como algo muito maior do que eu, e sabia que quando fosse o momento ela ficaria pronta, e foi o que aconteceu. Então a minha ideia foi trazer a força de todos estes elementos ao mesmo tempo, espero que as pessoas consigam sentir a energia que está envolvida ali.

Depois de tantos anos sendo conhecido principalmente como guitarrista, agora você assume o microfone como intérprete. O que esse passo representa para você pessoalmente?

Para ser sincero isso me deixa aterrorizado, ao mesmo tempo que era algo inevitável. Eu nunca gostei muito de ouvir a obra de nenhum artista solo, sabe? Sempre gostei de banda, porque acredito que ninguém faz nada sozinho e que uma música alcança um potencial muito maior quando há colaborações surgindo através de mentes que pensam por caminhos diferentes. Eu já compus muita coisa, mas nunca quis ser o cara que lidera uma banda, eu sempre me vi como um braço direito de quem lidera ou algo do gênero, e me preparei durante muitos anos para poder assumir este papel. Mas as vezes a vida nos leva para alguns caminhos diferentes do que a gente planejou e aí você tem duas opções: aceitar esta nova jornada ou ficar lutando contra algo que parece não estar no seu controle, e eu optei pela primeira opção, mas depois de optar pela segunda opção durante muitos anos, rs. Eu relutei com todas as forças para não seguir este caminho, até que em algum momento eu decidi aceitar. Eu compus uma serie de músicas que precisava sair do papel e se tornar algo concreto, elas apenas nasceram e eu não tinha mais como segurá-las, e a única opção era eu tomar as rédeas e encarar o processo como um todo, onde eu teria que ser o compositor, o cantor, o produtor musical, o guitarrista, o baixista e mais algumas outras coisas. O mais louco é que quando eu aceitei encarar este processo começaram a surgir pessoas que acreditaram no potencial das músicas e começaram a trabalhar comigo até que este processo fosse finalizado, e eu posso afirmar que ele não teria sido concluído se não fosse por cada uma destas pessoas.

Foto: Erik Machado

O clipe mostra dois mundos e duas versões suas convivendo na narrativa. O que você gostaria que o público sentisse ou refletisse ao assistir ao vídeo?

Este clipe foi um processo a parte, e ele simplesmente não existiria sem estas pessoas que começaram a apoiar o meu trabalho. Eu já havia gravado o clipe inteiro uma vez, e era uma ideia completamente diferente, mas no fim houve um problema e todo o material foi perdido. Eu fiquei bem frustrado, a ponto de querer desistir desta música, mas aí meu amigo Léo sugeriu que eu o deixasse dirigir o clipe e criar uma nova versão, do zero, e aí ele e o Yuri foram montando este roteiro onde haveriam dois personagens, sendo uma versão minha no mundo atual e ao mesmpo tempo uma outra versão minha em um futuro pós apocalíptico, onde conseguiram destruir tudo o que há ao nosso redor de uma vez por todas. Eu gostaria muito que as pessoas assistissem e refletissem a respeito das questões climáticas, e que entendam que não é mais uma questão de futuro, mas sim de presente. Quando eu era criança eu ouvia as pessoas falando que teríamos uma crise climática no futuro, e agora este futuro já chegou, ele simplesmente esta aí, e esta é uma realidade muito dura de aceitar, mas é aí que a música entra, porque não podemos ficar paralisados perante a algo tão assustador, muito pelo contrário, temos que lutar com todas as nossas forças para tentra encontrar formas de reverter este processo, o que eu acredito que seja possível. Não é fácil, nem um pouco, mas é possível.

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