A liberdade de ser quem se é, sem pedir licença e sem se curvar a julgamentos, é o combustível que movimenta “Tereze”, novo single da banda Eric Bê e o Avesso do Avesso, que chega nesta sexta-feira (14), em todos os aplicativos de música. Lançada pela Marã Música, a faixa transforma em arte a resistência diária de mulheres reais frente ao conservadorismo e ao assédio. Muito além de uma simples canção, o trabalho surge como uma síntese da mulher contemporânea: forte, consciente e dona da própria história.
Musicalmente, a faixa traduz a assinatura do grupo, uma marcante combinação entre a fúria do rock e a delicadeza de arranjos que incorporam violino, piano e influências que vão da música erudita à MPB. Esse equilíbrio sonoro reflete também um divisor de águas na trajetória do projeto: é o primeiro lançamento oficialmente concebido, arranjado e gravado pela formação de seis integrantes, marcando a transição da carreira solo do vocalista para a energia coletiva de uma banda completa e cheia de alma.
Com raízes na Zona Oeste de São Paulo, o sexteto prova que o rock continua sendo uma ferramenta potente para expor contradições sociais e dar voz a pautas urgentes. Em um papo honesto e direto, a banda nos conta como foi o processo de criação de “Tereze”, a busca pelo equilíbrio de sua sonoridade e o papel da arte no cotidiano político atual. Confira:
“Tereze” transforma em personagem diferentes experiências e características observadas em mulheres reais. Como foi o processo de construir essa protagonista e o que vocês gostariam que as mulheres que se identificarem com ela sintam ao ouvir a música?
A construção de Tereze começa a partir da observação dos chamados redpills, esses caras que fazem algum sucesso nas redes sociais e se incomodam quando veem uma mulher com tatuagem, fumando ou usando uma roupa curta, que acreditam que a família tradicional vai ser destruída simplesmente porque os gays têm mais liberdade do que anos atrás. Tereze é uma mulher comum, forte e consciente. Gostaríamos que as mulheres sentissem que não estão sozinhas na luta, que podem contar com outras “Tereze” e também com os homens que estiverem ao lado delas.

A letra aborda temas como conservadorismo, assédio, preconceito e liberdade feminina de maneira bastante direta. Vocês enxergam “Tereze” também como uma música política? Qual é o papel do rock, para vocês, ao abordar questões sociais como essas?
Nós entendemos política como algo muito mais amplo do que o papel dos partidos e dos políticos profissionais, acreditamos que a visão política está no cotidiano, na forma como abraçamos ou rejeitamos pessoas que têm naturezas ou escolhas diferentes das nossas, então, sim, Tereze é uma música política.
O rock nunca foi somente um estilo musical, sempre foi atitude, seja ao defender a liberdade de expressão, ao lutar contra a guerra, o racismo e o autoritarismo nos anos 1960, ao compartilhar espaço nos anos 1970 com os jamaicanos do reggae, ao emergir do punk brasileiro no início dos anos 1980, às críticas ao racismo estrutural americano do Rage Against the Machine nos anos 1990 e, quem sabe, à retomada desse papel, com bandas como Black Pantera e nossos amigos da Drenna, que recentemente lançou a música Levante em conjunto com outras roqueiras incríveis.
“Tereze” é o primeiro lançamento oficialmente concebido por Eric Bê e o Avesso do Avesso como banda. O que mudou no processo criativo a partir dessa formação e de que maneira a contribuição dos seis integrantes começa a definir uma nova identidade para o projeto?
Nas produções do Eric Bê em carreira solo, as canções eram escritas, algumas eram arranjadas pelo próprio artista e outras por arranjadores experientes, e depois eram contratados músicos de estúdio para executar as canções.Tecnicamente, tudo era lindo, mas faltava alma. A banda Eric Bê e o Avesso do Avesso já vinha acompanhando o artista nos shows há vários meses, e quando voltaram para o estúdio, cada canção passou a ter contribuições dos músicos, algumas músicas que seriam gravadas foram engavetadas, e outras, como Tereze, se mostraram mais fortes. No fim, o álbum que será lançado em outubro de 2026 tem corpo e tem alma, no sentido de que, mesmo em músicas de estilos mais diferentes, será possível perceber que aquela banda é Eric Bê e o Avesso do Avesso.
A banda define sua sonoridade como uma mistura de “fúria e delicadeza”, e “Tereze” talvez seja um dos exemplos mais claros disso, unindo um rock mais pesado às camadas de violino. Como vocês chegaram a esse equilíbrio e o que essa faixa antecipa sobre os próximos lançamentos da banda?
Eric Bê e o Avesso do Avesso é uma banda com formação eclética, com vários integrantes com formação musical sólida, que já experimentaram tocar em orquestras, bandas de jazz ou de MPB, por exemplo. Esse molho é usado a favor do rock. Ao fazer os arranjos, escutamos bandas como Beatles, Supertramp, Eletric Light Orchestra, Oasis e Strokes, e durante as gravações, fomos dirigidos pelo produtor Jonas Paulo, que também colocou pimenta nesse molho. O resultado é um rock em que a guitarra divide o protagonismo com os demais instrumentos, como o violino, uma marca da nossa banda.

