Um encontro profundo com as próprias raízes e a afirmação de uma identidade musical construída entre Brasil e Japão. É com essa premissa que a cantora e compositora Mariana Matsui apresenta seu primeiro álbum, já disponível pela gravadora japonesa Rambling Records. Batizado com o seu nome, o disco reúne nove faixas que refletem diferentes momentos de sua trajetória, combinando composições autorais, algumas criadas especialmente para o projeto, e releituras de canções de artistas que marcaram sua formação e seguem presentes em seu repertório.
O encontro entre essas referências ganha força com a presença de quatro artistas que ocupam lugares importantes na formação musical de Mariana: Marcos Valle, Lisa Ono, Jaques Morelenbaum e Takuya Kuroda participam do disco, trazendo diferentes experiências e sonoridades para um repertório que percorre a MPB, a bossa nova, o jazz e o soul. A produção é assinada por Big Rabello, com a colaboração do pianista e arranjador Salomão Soares.
O álbum ainda ganhará uma edição em CD, que chegará às principais lojas de música de Tóquio em 18 de novembro. No dia 16, tem show de lançamento para convidados na Soho House Tokyo. Para Mariana, nascida em Dourados, no Mato Grosso do Sul, mas que viveu no Japão por alguns anos, o lançamento tem um significado especial. No país, onde os formatos físicos seguem valorizados, capas, encartes e projetos gráficos fazem parte da experiência musical.
Entre composições autorais e releituras, Mariana Matsui apresenta um repertório que transita pela música brasileira, pelo jazz e por referências da canção japonesa.
Com o lançamento do álbum, Mariana também prepara uma série de apresentações no Japão. Em 3 de novembro, participa do Bossa Aoyama, em Tóquio, evento com apoio da Embaixada do Brasil. No dia 6, apresenta-se ao lado do artista de ikebana Ryota Hagiwara. Já no dia 8, segue para Yokohama, onde integra a programação do Local Green Festival.
Clássico de Marcos Valle revive em novos arranjos
Um dos encontros mais significativos do disco acontece em “Mentira”, composição de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle lançada em 1973. A canção, marcada pelo groove e por uma letra atravessada pelo contexto da ditadura militar brasileira, ganha uma nova interpretação com a participação do próprio Valle.
“Marcos Valle é uma grande referência musical para mim, desde o início da trajetória dele na bossa nova, passando pela incorporação de outros elementos sonoros, como jazz, funk e pop”, conta Mariana.
Após a gravação, Mariana visitou Marcos Valle em sua casa, no Rio de Janeiro. O compositor elogiou o novo arranjo e conversou com a cantora sobre sua abertura para colaborar com artistas de outras gerações. Segundo Mariana, ele também revelou que trechos da letra original precisaram ser retirados devido à censura durante a ditadura militar, embora a mensagem central tenha sido preservada.
“É impressionante pensar que uma canção de mais de 50 anos continua, de certa forma, tão atual. Acho que isso diz muito sobre a potência da composição e também sobre questões da nossa sociedade que continuam presentes. Quis trazer uma releitura que preservasse a essência do Marcos, mas que também dialogasse com a minha musicalidade e com a proposta do disco”, explica.
Música tradicional japonesa em nova versão com participação ilustre de Lisa Ono
Outra participação de destaque é a da brasileira Lisa Ono em “Kawa no nagare no yō ni”, um dos grandes clássicos da música japonesa. Eternizada na voz de Hibari Misora, que lançou a canção como single em 1989, a composição atravessa gerações ao comparar o curso de um rio aos caminhos e transformações da vida. Na interpretação de Mariana, a música ganha um novo arranjo, com influências de bossa nova e jazz, sob produção do pianista e trompetista Mao Sone. Lançada previamente, a faixa foi escolhida como primeiro single do álbum e representa uma conexão especial com as origens japonesas da cantora.
“É uma música que todo filho e neto de japonês conhece. Ela me remete à infância, à família, às colônias, à convivência entre avós, filhos e netos. O álbum é majoritariamente de música brasileira, mas essa faixa sintetiza esse lugar de encontro entre as minhas raízes”, afirma Mariana.
Nascida em São Paulo, Lisa Ono construiu uma carreira de destaque no Japão e se tornou uma das principais responsáveis pela difusão da bossa nova no país. Sua presença no álbum reforça uma conexão cultural que atravessa a própria história de Mariana.
“Eu sinto esse pertencimento às duas culturas, que podem coexistir, mesmo sendo tão distantes. Ser esse elo entre Brasil e Japão é muito especial, honra meus ancestrais e me ajuda a entender quem eu sou no mundo”, diz a cantora.
O repertório inclui ainda “Somewhere”, composição de Mariana com participação do trompetista japonês Takuya Kuroda, e “Lullaby”, escrita após a cantora descobrir que estava grávida do seu primeiro filho. Para a gravação desta última, Jaques Morelenbaum veio do Rio de Janeiro e participou de uma sessão ao vivo, registrada em um único take com o pianista Salomão Soares. Entre as autorais estão “Olhos Morenos”, “Abençoa” e “Oxum (Tua Filha)”, parceria com Saulo Fernandes e Renato Iwai. Completam o repertório releituras de “Fotografia”, de Antonio Carlos Jobim, e da canção japonesa “Manatsu no kajitsu”.
O álbum tem em sua formação instrumental piano, Rhodes, sintetizadores, violão, guitarra, baixo elétrico, bateria e percussão, com Conrado Goys, Fabio Sá, Salomão Soares e Thiago Rabello. Já “Kawa no nagare no yō ni”, com Lisa Ono, tem produção de Mao Sone e reúne músicos brasileiros e japoneses.
Mariana Matsui iniciou sua trajetória musical aos oito anos, com estudos de canto popular e violão. Anos depois, ingressou no Conservatório Souza Lima & Berklee College of Music, em São Paulo. Ao longo da carreira, Mariana se apresentou em cidades como Lisboa, Osaka e Tóquio, passando por espaços como Blue Note São Paulo, Billboard Live Tokyo e Blue Note Tokyo, além do Fuji Rock Festival.
Em 2023, lançou “REZA”, que alcançou o primeiro lugar na parada R&B/Soul do iTunes na Holanda, e “Signs”, com participação de Shing02. Também desenvolveu o projeto Candle Light: An Acoustic Session, com interpretações em português, inglês e japonês. Em setembro de 2025, apresentou-se na EXPO 2025 Osaka, no Pavilhão da França.
REPERTÓRIO
1. Olhos morenos (褐色の瞳)
2. Abençoa
3. Oxum (Tua Filha)
4. 川の流れのように (Kawa no nagare no you ni) — feat. Lisa Ono
5. Somewhere — feat. Takuya Kuroda
6. Mentira — feat. Marcos Valle
7. Lullaby — feat. Jaques Morelenbaum
8. Fotografia
9. 真夏の果実 (Manatsu no kajitsu)

